sábado, 15 de fevereiro de 2014

Celso Furtado Essencial, de Celso Furtado

Multifacetas de um pensador da América Latina


FURTADO, Celso. Celso Furtado Essencial. 1ª ed. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras. 2013. 527p. (Organização e notas de Rosa Freire D´Aguiar).

Ter ou não acesso à criatividade, essa é a questão. A frase fecha o ensaio “Reflexões sobre a cultura brasileira” e sintetiza um dos eixos do pensamento de Celso Furtado (1920-1984) e desta seleção de algumas de suas obras, realizada por sua viúva Rosa Freire D´Aguiar. A obra do economista nordestino é multidimensional e este pequeno volume o atesta: desde a teoria e a história econômica até áreas menos esperáveis como ciência e criatividade, muito das ciências humanas foram objeto de suas preocupações.

A América Latina deve resolver seus problemas e carece de teoria para tanto e o teorizar enquanto se faz parece ser uma sina. O mesmo aconteceu com Celso: nunca um teórico nem um administrador puros, a primeira parte do volume elenca trechos autobiográficos, entre os quais destaque-se sua passagem pela Comissão Econômica para a América Latina – Cepal. Tal órgão representou talvez a primeira tentativa séria de pensar o continente a partir de dentro. Lembremos o líder de tal escola, o argentino Raúl Prebisch, cuja biografia já foi objeto de resenha neste blog.

Retratado pelos apologistas da Ditadura Militar como um marxista raivoso, Celso nunca foi isso – e o autor desta resenha pode atestá-lo pessoalmente. Em lançamento de livro em 1984, impressionou-me sua calma – que se pode confirmar em suas entrevistas na mídia. Em termos teóricos, o marxismo clássico não dirige seu pensamento. Celso acredita em sérias ligações entre a base material de uma sociedade e suas expressões política, administrativa e cultural. Mas não crê em uma determinação de todo o demais pelo econômico.

Coletânea multifacetada de um autor que também o é, alguns trechos (talvez não os menos interessantes) destacam o papel propulsor da cultura. Isso se dá entre países: em “Subdesenvolvimento e dependência” o autor descreve como as sociedades periféricas destinadas a produzir em função das economias cêntricas absorvem a cultura destas últimas, particularmente em uma classe privilegiada relativamente pequena, e isso gera pressões permanentes no balanço de pagamentos em função de uma propensão a consumir bens da cultura fonte. Também pode se dar entre regiões: o ensaio “Operação Nordeste” enfatiza como, enquanto a natureza do Nordeste é bem adaptada à carência de água, a estrutura econômica-social que para lá se transplantou não o é.

Ele mesmo disse que a questão é saber quais povos contribuirão para o enriquecimento do patrimônio cultural da Humanidade, e quais se resignarão a consumidores de bens culturais alheios. Aqueles que pensam o Brasil e a América Latina não podem perder Celso Furtado de vista. Não para repeti-lo, mas para utilizar sua abordagem multidisciplinar e que buscava sempre a origem dos problemas.

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